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Proteger o solo e a água após os incêndios

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Voltar 18 out 2017
Proteger o solo e a água após os incêndios
Logo após o fogo é essencial uma abordagem rápida que permita evitar a erosão do solo.

Proteger o solo e a água são prioridades que têm um forte impacto ecológico mas também social e económico (evita deslizamentos, inundações, custos adicionais em tratamento de água para consumo, desassoreamento de linhas de água, entre outros).

As seguintes propostas surgem, não em exclusivo mas principalmente, do seguinte artigo – ‘Strategies to prevent forest fires and techniques to reverse degradation processes in burned areas’ de Ferreira et al (2015).

A técnica mais estudada e efetiva na redução da erosão do solo após o fogo é o ‘mulching’. Consiste na cobertura do solo com maior risco de erosão com uma camada de material orgânico, que pode ser palha, estilha de madeira, resíduos florestais ou ‘hidromulch’ (uma mistura de vários materiais). O ‘mulching’ pode reduzir o volume de escorrência de água em 50% e a erosão do solo em 90%. Na verdade, esta é uma técnica da própria natureza: ocorre naturalmente se o fogo for de intensidade baixa ou moderada, já que as folhas queimadas caem e criam uma superfície sobre o solo que garante proteção contra a erosão provocada pela água.

A palha é o material mais leve e eficaz, embora nem sempre esteja disponível e se degrade mais rapidamente. Os restos de madeira queimada ou resíduos florestais (ramos, folhas, acículas, etc.) também podem ser deixados na área queimada para cobrir o solo, criando condições para a retenção de cinzas e armazenamento de água, evitando a erosão e a lavagem de nutrientes. Uma das práticas mais simples é deixar passar algum tempo antes de retirar as árvores queimadas, de modo que as folhas e acículas possam cair e cobrir o solo.

O ‘mulch’ de resíduos florestais (estilha), de fibras longas e flexíveis, garante uma boa cobertura da superfície do solo, com boa retenção de partículas, manutenção da humidade (redução da evaporação), aumento do conteúdo em matéria orgânica e melhoria da estrutura do solo. Em Portugal, a estilha de casca de eucalipto mostrou ser efetiva e resistente para este fim.

Quanto ao ‘mulch’ de ramos e arbustos deve ser tido em consideração a necessidade de os desfazer em pedaços mais pequenos e colocá-los efetivamente em contacto com o solo, de modo a garantir uma maior retenção de água e sedimentos. Também podem ser usadas pedras, se as houver.

O ‘hidromulch’ é usado para evitar a erosão do solo em áreas de maior declive. É uma mistura de água, palha, papel reciclado, estilha com um corante, sementes e agentes tensioativos. A escolha dos componentes é essencial para o sucesso do tratamento. Cria uma camada que protege o solo da erosão pelas chuvas até à germinação e fixação das sementes. É aplicado com aspersor, sendo um tratamento mais exigente em termos financeiros.

O ‘mulch’ pode ser também aplicado em bandas ou barreiras (não cobrindo totalmente o solo), embora com maior risco de insucesso. Pode ser usada palha, resíduos florestais, troncos e ramos (queimados ou não) e devem ser agrupados em barreiras perpendiculares aos ângulos da pendente, de forma regular e paralela.

A técnica de ‘mulching’, usando os materiais existentes na região em causa (palha, caruma, casca triturada, madeira em estilha) é aquela que apresenta a melhor relação custo-resultado.

Outra das práticas para reduzir a erosão do solo após o fogo é a sementeira. Consiste no uso de sementes de vegetação pioneira – geralmente misturas de plantas leguminosas – de modo a garantir a cobertura do solo até a vegetação nativa recuperar. Não é uma técnica consensual já que o sucesso é muito variável (depende da presença de chuva, na intensidade e tempo adequados). Espécies nativas (Cytisus sp e Ulex sp., por exemplo) também têm sido usadas para este fim. A sementeira pode ser direta, em ‘mulch’ ou sementes recobertas. Logo após o fogo, é difícil que as sementes germinem: a camada compacta de solo hidrofóbico impede o desenvolvimento do sistema radicular e as sementes são facilmente transportadas pela água antes de poderem germinar.

O sucesso da sementeira pode ser fortemente aumentado se as sementes forem colocadas no ‘mulch’ (aumenta a taxa de germinação porque protege as sementes das gotas da chuva, aumenta a infiltração e a humidade). Neste caso realizam-se duas técnicas em simultâneo, poupando tempo e outros recursos.

Para reduzir a erosão do solo também podem ser instaladas barreiras. Consiste na disposição de troncos, tubos de rede metálica cheios de palha e detritos ou de outras estruturas de engenharia natural de modo a estabelecer barreiras físicas que evitem o fluxo em vertentes, promovendo a infiltração da água e retendo sedimentos de modo a evitar que atinjam os cursos de água. São instaladas perpendicularmente ao declive e, para cumprir a sua função, devem estar totalmente em contacto com o solo e afixadas. Os troncos da madeira queimada podem ser usados com este fim, embora alguns estudos tenham indicado que o uso de troncos tem as suas limitações, nomeadamente a sua reduzida eficácia em eventos de chuvas mais intensas. Em estudos comparativos entre esta técnica e o ‘mulching’ com palha, a última demonstrou ser mais eficaz. As barreiras elaboradas com um esqueleto externo de rede metálica recheado de palha e detritos são mais flexíveis e adaptáveis à superfície do solo.

Uma outra técnica a considerar é a criação de oportunidades de infiltração da água no solo, embora com cuidado. Um dos principais desafios em áreas queimadas é a ausência de qualquer proteção do solo às gotas de água da chuva e o escorrimento de sedimentos devido à falta de infiltração da água. Assim, as técnicas que permitam aumentar a rugosidade do solo, criar obstáculos aos fluxos de água e sedimentos ou promover a infiltração da água, podem desempenhar um papel fundamental na conservação do solo e da água em áreas ardidas. 

Na ótica do controlo da erosão, lavrar ou ripar o solo devem ser praticas a evitar, já que atrasam o desenvolvimento do coberto vegetal (quanto maior o volume de solo mobilizado mais lento é o desenvolvimento da vegetação). Vários estudos realizados em Portugal confirmam que lavrar e ripar aumentam significativamente a escorrência e a erosão do solo. De acordo com Moreira et al (2013), a mobilização do solo atrasa a recuperação das espécies nativas e cria oportunidades para o desenvolvimento de espécies de plantas invasoras.

Depois da aplicação destas técnicas de emergência após o fogo, haverá que iniciar o restauro ecológico, com uma particular atenção ao surgimento de espécies invasoras que devem ser controladas desde logo, e o favorecimento – ativo ou indireto – de espécies de interesse para a biodiversidade e para criar um coberto mais resiliente ao fogo e adaptado à área.

Este artigo foi transcrito a partir da página FUTURO - o projeto das 100.000 árvores

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